Mil Contos …

elmorio

Como é bonito acompanhar o crescimento de uma criança. Desde seus primeiros passos, seus traços despontando a cada ano, seu desenvolvimento, seu jeito de ser.

Observando desse ponto, vejo como o esporte Bodyboarding cresceu até os dias de hoje e é sob esse prisma que vou tecer minhas impressões nessa coluna aqui no Ohanabb.

Desde que chegou ao meu conhecimento o ato de deslizar sobre uma ondinha de espuma, uma marola na beirinha, já senti uma sensação rara, um bichinho me picou quando tinha apenas 8 anos de idade. Um pedaço de isopor encapado com um tecido de pano era uma diversão garantida em qualquer incursão para a praia e no Leblon, praia da Zona sul carioca, o surf já era moda desde o tempo do Pier, das dunas e dos hippies dos anos 70.

Só que antes do surf veio o Jacaré, que era um bodyboard de madeira balsa ou ‘madeirite’ e os aqualoucos da época usavam pés-de-pato. Eram vistos praticando na praia de Copacabana e Leme e esses sim foram os precussores do esporte que conhecemos hoje.

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Vou falar do que vivenciei, então começo a folhear uma revista na banca perto da minha casa e vejo uma propaganda numa revista de surf americana que me chamou a atenção.

Era uma foto de um negão (Daniel Kaimi) com o cabelo blackpower despencando de cabeça agarrado a uma pranchinha amarela com os cantos pretos numa onda que depois vim a saber que era Pipeline. Aquela cena me cristalizou, me deixou hipnotizado e me via com uma daquelas pranchinhas e não mais meu pedaço de isopor encapado.

O problema é que em 1982 ainda não se vendiam bodyboards nas lojas de surf e como eu tinha um certo dom pra criar meus brinquedos, começei a planejar na cabeça uma prancha como a da propaganda…

Meu tio um dia me aparece em casa com uma prancha de surf, havaiana, uma monoquilha gunzeira amarela e me deu de presente, sabendo do meu gosto pelas ondinhas. Me metí com ela no quarto e no meio das ferramentas de meu pai, aparecí na sala com a prancha serrada ao meio e o corpo todo branco do pó que desprendia do bloco de fibra.
Em um par de dias, conseguí cobrir a parte de cima com uma camada de isopor e cobri toda com um plastico grosso amarelo, envolvendo bordas, bico e rabeta com um fita prateada que vendia na loja Surfs do Arpoador, o popular ’silver tape’…

Nasceu meu primeiro bodyboard e com certeza não havia um moleque mais feliz que eu na redondeza, até que no dia em que estreei meu bólido, fomos pra Cabo Frio, na praia do Foguete e depois de umas ondas de meio metro e despencadas nos buracos, a prancha se partiu! Foi aquele chororô e acabou-se minha alegria… Eu estava inconsolável, triste pelo brinquedo quebrado tão precocemente… mas sabia que não ia parar por aí.

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No inicio de 83 chegaram os primeiros Morey Boogie em algumas surfshops e aí tinha eu uma meta a cumprir. Começei a pedir adesivos nas lojas e vendia na escola. Deixava de ir no cinema pra poder juntar todo dinheiro possível pra comprar meu Morey Mach 77. Passaram-se meses e nao tinha nem a metade ainda… E o pior era que se acercava o fim do ano e minha família toda passava as férias num condominio na praia do Mar e Sol, em Ilheus, Bahia. Eu não podia imaginar um verão sem minha pranchinha…
Cheguei pros meus pais e entreguei minhas economias que havia reunido e lhes disse que como tava chegando o Natal e no mês seguinte era meu aniversário, que se eles pudessem, que completassem a grana e comprassem meu presente adiantado, pois eu não aguentava mais…

Ná época as pranchas vinham com copinho, furadas e com strep (cordinha) e foi aquela alegria! A prancha era do meu tamanho! Eu me escondia atrás dela, de tão grande! E os pés de pato vieram depois, uns Cobra Sub de mergulho que cortei embaixo e vestia umas meias grossas de futebol, hehehehe, imagine a figura…

A partir daí, minha vida tomou um rumo surpreendente e que geraram os Mil Contos que vou relatar nessa coluna que vocês estão lendo, á cada mês.
Senta que lá vem estória!!!

Um forte abraço e muita Vibbe!

Elmo Ramos (Ride It!, Soul Boogie, Board Co.)

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